Eu gostava de estar rica de alguma coisa.
Já no final da infância, tive um alumbramento,
fiquei tomada de espanto:
eu era a pessoa mais feliz do mundo!
Um mistério soberbo invadia meus dias
e, por ser a agraciada, em algum momento
me convocariam a um ato grandioso:
ou trabalhar mais do que todos ou morrer de repente.
No cume da adolescência, meu espanto foi outro,
mais pesaroso e de igual comoção:
eu era a mais sofredora dos mortais!
O que me esperava, o prometido, estava muito distante:
só os anjos me amavam, mas não podiam me escutar.
Com os anos, fui me desabitando de felicidade
e sofrimento e ocupando do trânsito incansável
entre o de dentro e o de fora,
da sagração rotineira das coisas.
Hoje estou rica de mundos.
Porque estou aqui e me transporto.
Tudo presente e espera.
De Raiça Bomfim
Intuição de uma mulher aos trinta... Escrever sobre um pouco de tudo e um tanto de nada.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Aunciação
Alceu Valença
Na bruma leve das paixões
Que vêm de dentro
Tu vens chegando
Pra brincar no meu quintal
No teu cavalo
Peito nu, cabelo ao vento
E o sol quarando
Nossas roupas no varal...
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais...
A voz do anjo
Sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido
Já escuto os teus sinais
Que tu virias
Numa manhã de domingo
Eu te anuncio
Nos sinos das catedrais...
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais
Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais...
Nenhum Homem é uma Ilha Isolada
"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar dos teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano, e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". Jonh Done, escritor inglês ( 1572-1631 )
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Crime organizado domina o Rio; falta prevenção
Este artigo é da Delegada da Polícia Civil de Salvador,
Patricia Nuno
Depois de uma noite de insônia provocada pelos conflitos existenciais da minha vida privada, amanheço com a televisão ligada, recurso que utilizei na madrugada para tentar distrair os pensamentos que se digladiavam em fúria e aflição.
As cenas de horror dos ataques do Rio de Janeiro me fizeram submergir das profundezas escuras daquele oceano de águas cálidas, a minha doce e bem feminina crise particular.
Que inferno!! Uma mãe correndo com a sua filhinha agarrada nos braços em busca de abrigo, olhos esbugalhados espreitando por detrás das gretas de janelas das suas casas, comércio fechado, muito fogo, correria, fumaça, pavor! Grupos armados sorrindo e festejando ao som das chamas flamejantes e desafiadoras, tiros para o alto! Do outro lado, policiais ostentando orgulhosamente os seus fuzis, ávidos pelo cumprimento, estrito ou não, do dever legal, helicópteros, luzes, sirenes, o famoso “caveirão”!! Concluindo a reportagem, uma voz trêmula, quase balbuciante, tentando explicar o fato ocorrido, boca seca, sem saliva, sem argumentos, porque faltou humildade para reconhecer que faltou prevenção. Agora ele volta a falar de UPPs, Unidades de Polícia Pacificadoras.
Excelente!! Muda-se a gestão, trocam-se os termos, e as ações continuam as mesmas. Ações de repressão, blitz, operações, incursões em áreas de alto índice de criminalidade, becos e vielas, favelas. É o combate à violência com violência, porque não dá pra ser diferente quando o bicho pega.
Bem, pelo menos ao longo desses quinze anos de experiência como Delegada de Polícia, sempre atuando na base do sistema, nunca tive noticia de que alguma mente brilhante da cúpula tivesse despertado para o fato de que as soluções para controle e combate à criminalidade não estão adstritas à Secretaria de Segurança Pública. Como agente de segurança acredito que o caminho está justamente através de pastas diversas como Educação, Esporte, Turismo, Cultura e tantas outras que, em ação integrada com a própria Segurança Pública desenvolvam projetos de ação preventiva direcionadas ao combate à violência. Bola pra frente, vamos evitar ou nos preparar para os ataques futuros!!
Enfim, fui resgatada pela consciência e arrebatada por um sentimento de vergonha misturado com alegria. Vergonha por ter me deixado abater por circunstâncias negativas, porém transitórias da minha vida. Com a aplicação dos ensinamentos de fé que tento transmitir aos meus filhos a cada segunda feira, quando nos reunimos para fazer o Evangelho no lar, a tristeza não teria me roubado uma noite de sono sequer. É questão de acreditar que o Pai nunca nos abandona, e que tudo pelo que passamos é necessário para o nosso aperfeiçoamento, para a nossa evolução espiritual.
Alegria, por perceber a sensibilidade latente no meu coração, que há quinze anos vem batendo no ritmo descompassado da rotina de sobressaltos, sob a pressão de um ambiente de trabalho onde tenho que lidar com mortes violentas, maldade, “gente ruim”, sujeira, mal cheiro, mentira e toda espécie de situação que possa embrutecer a minha alma. Não, eu não fui contaminada pelo ambiente policialesco!
O pior de tudo é perceber que as pessoas não estão nem ai!! Ninguém se importa com as dificuldades enfrentadas pelos menos favorecidos, ninguém liga para Samuca, aquele doido que anda pela Rua Sabino Silva aqui em Salvador, conversando sozinho e olhando sempre para o alto, para os arranha-céus; porque ninguém nem percebe a quantidade de pessoas famintas que dormem sob pedaços de papelão a ermo; porque ninguém quer saber o histórico familiar daquele menino que está usando drogas ou servindo de olheiro para os traficantes comandantes das favelas; ninguém liga nem para os problemas do melhor amigo, porque não tem tempo nem interesse de parar para escutar o seu melhor amigo; nem os filhos escapam hoje em dia, andando em más companhias debaixo do nariz dos pais, que não estão nem ai….
Presta atenção, minha gente!! Tenha sensibilidade e pense no que se pode fazer para melhorar o seu lar, o seu ambiente de trabalho, o nosso mundo! Um sorriso, um gesto, uma palavra, uma gentileza, uma doação??
Fora da caridade, minha gente, não há mesmo salvação!
Muita paz.
Esta editoria é de responsabilidade do jornalista
José NatalCorrespondente de Brasília
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Eu sei mas não devia...
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colassanti
Cada um com seus problemas(Prosa)
- Mas eu já te disse que perdi meu braço operando um torno!
- Foda-se! Problema seu! Isso é um assalto, mãos ao alto!
Clóvis L.
- Foda-se! Problema seu! Isso é um assalto, mãos ao alto!
Clóvis L.
A FLOR DA AÇUCENA
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